14.5.12

Omeletes sem ovos


Há dias, disse o nosso PM: "Estar desempregado não pode ser um sinal negativo". Tem de "representar também uma oportunidade".
E pronto. Levantaram-se as vozes, como se convém. Estaria a ofender quem passa fome, quem não tem por onde se virar, quem se vê entre a espada e a parede.

Nunca tanto se falou em se ser empreendedor. E quando se fala, é para se atirar ovos podres. Mas é preciso fazer omeletes, ou seja, é preciso sair desta, senão a malta não se safa. Mas onde estão os ovos (sem ser podres), afinal?
Pus-me a pensar. Parece-me lógico o que o PM diz, mas também concordo com aqueles que se vêem num beco sem qualquer saída, em situação de desespero. Onde está a final a culpa?
A resposta não é na política. Não senhores. A resposta li eu há uns dias:
Não se nasce empreendedor. Aprende-se.

Bingo!
E contra mim falo: a mim nunca ninguém me ensinou a criar o meu próprio emprego, à minha geração ensinava-se a fazer o curriculum. Ponto. Ninguém pegava na cabecinha e se punha a pensar. Os ovos, afinal, estão aqui. A resposta é na formação, pensei, na escola, nos primeiros tempos de vida de uma criança em idade escolar e por aí fora.
Foi então que tomei conhecimento de uma Associação chamada “Junior Achievement “ (saber mais aqui) que desde 1920, eu repito 1920, ou seja há quase 100 anos, ensina miúdos dos 6 aos 18 a ser empreendedores (uma organização não política, não governamental ok? não é o Estado que tem de encontrar soluções, são as pessoas que têm de começar a pensar em respostas adequadas aos tempos que se passam, certo?).

Esta Associação sem fins lucrativos ensina-os, dá-lhes as ferramentas necessárias para os pôr a pensar, a encontrar soluções, a preparar apresentações, a expor as suas ideias. A este rectângulo de vida quase milenar, chegou em 2012 pela primeira vez a Junior Achievement (pela mão da Sonae) a colocar desafios aos miúdos do Norte do País. Depois há uma final em Bruxelas, onde serão apresentadas as melhores ideias a nível europeu.
Isto não é de nenhum Governo, nem de nenhum PM. Isto é do senso comum. E a declaração do Coelho foi um desabafo, um pensamento do senso comum. Assim o penso.

Quantas e quantas empresas portuguesas, tradicionais, familiares, maduras, se vêem aflitas com a falta de ferramentas, porque não sabem nem nunca ninguém lhes ensinou a inovar, a ir buscar novos clientes, a pensar numa nova vertente do negócio, a agir em comunidade, a dar asas à criatividade.
Podem os EUA ter muitas coisas erradas, mas outras tantas fazem-nas muito bem feitas. Toda a minha formação profissional foi adquirida numa empresa 100% americana, que na sua génese nada tinha a ver com a gestão feita em Portugal. Eu gostava daquele método de trabalho e postura americana, eu não me identificava com a forma aportuguesada com que as coisas eram feitas cá.
É verdade que fui despedida. Mas hoje, passados 6 anos, e tendo-me estabelecido como free lancer, em tudo o que faço, em toda a minha maneira de trabalhar, é a escola americana que está presente. Os americanos fazem bem feito e pensam nas coisas. Só não sabem improvisar e é aí que está a arte em se ser português no mundo empresarial. Somos excelentes improvisadores. Juntar as competências técnicas e ferramentas de trabalho com o improviso que nos é característico, parece-me ser a receita ideal para o empreendedorismo. Essa palavra que as pessoas urram e acham ser uma ofensa.

Ofensa é continuar a pensar que o Estado tem de dar emprego às pessoas e a pôr o pão na mesa. Estamos, como sempre, a viver utopias e a discutir ideais e a perder tempo com a política. Às vezes acho que somos um povo de tolinhos, a viver sonhos de casas de férias no Algarve e monovolumes lustrosos, mas sempre à espera que o Estado resolva as tais coisinhas da vida.  
O pensamento de que o importante é o povo não morrer à fome e ter direito a uma casinha com retrete e um quintalzinho com uma horta é do passado, senhores. Já chega disso. A ideia de que o povo merece tudo, porque tudo é do povo, é de 1974 quando em Londres, o telejornal da BBC, abre com uma reportagem sobre Portugal que nos intitula de "O Manicómio Europeu". Já passaram 38 anos. E continuamos a parecer maluquinhos.
A política é, para mim, cada vez mais um exercício de retórica, retrogrado e obsoleto. O português adora uma boa estrofe assim como uma boa retórica; até o Papa João Paulo II quando cá esteve em Fátima, em 1982, fez um discurso de 45 minutos, coisa nunca vista em lado nenhum.
Só dependemos de nós próprios, não é do PM, nem do Governo. A culpa é de todos. Porque no Governo estão pessoas, não animais de duas cabeças. São pessoazinhas em quem o povo votou, não são ovnis.
A solução para uma empresa quando entra em colapso não é a organização de uma campanha, com sondagens e votos, é a criação de massa crítica, de soluções, é a criatividade e a originalidade. A omelete precisa de ovos, não te votos. 
Gostava um dia de fundar um movimento a-político, em que as pessoas formariam grupos de trabalho, os tão americanos “Think Tanks” (aprendi tanto com isto, nos idos anos de vida corporativa americanizada): são verdadeiras oficinas de ideias, pesquisas, pensamentos, soluções concretas para coisas concretas. Sem discursos, nem eleições.
Correndo o risco de ser vaiada, o meu Bolo de Arroz ser vandalizado com grafittis e tags, só quero que fique bem claro que: adoro o meu País, acredito que podemos sair desta crise e tenho imensa esperança nesta nova geração, pois acho mesmo que a melhor coisinha que nos poderia ter acontecido foi precisamente uma crise.



4 comentários:

Anónimo disse...

Que maravilha ler isto!...é que precisamos de pessoas assim e a velha guarda fica mais positiva se souber que deixa para trás pessoas com forças deste calibre!
PARABÉNS

Anónimo disse...

'Não se nasce empreendedor. Aprende-se.'
E esses que aprendem, que não o tenham nascido, se conseguirem sobreviver, já muito conseguem.
'Eu gostava daquele método de trabalho e postura americana'
O método norte-americano costumava ser muito simples: o que estava a morrer era para deixar morrer. Desde 2008 as coisas estão bastante diferentes.
'Ofensa é continuar a pensar que o Estado tem de dar emprego às pessoas e a pôr o pão na mesa.'
Não te deverias sentir ofendida porque o estado português consome 55% da riqueza produzida no país todos os anos, desperdiçando cerca de 30% de tudo o que consome. Imagina os EUA com um estado a consumir 55% da riqueza gerada na federação.
'é a criatividade e a originalidade'
então é outra empresa e outro empreendimento (ou não será?)

Anónimo disse...

Sabes o que te digo - é a mentalidade "não há canoas para ninguém..."
Para mim, basta de facilitismos, basta de gente burra, basta de demagogia, basta de feiras de vaidades, de crispações pacóvias e desprovidas de sentido, de opiniões ocas, de opiniões sobre tudo e sobre nada, de telejornais tristes, enfadonhos e palermas, de gente socialmente inadaptada, da falta de convívio físico e intímo entre as pessoas, da falta de opções de escolha, da falta de conhecimento, da falta de tempo, falta de compreensão, do desinteresse sobre o que nos rodeia e sobre quem nos rodeia...

Anónimo disse...

Pois.É mais uma pedrada no charco.Arrisco a dizer que o charco
tem sido , desde a alguns anos, alvo de muitas pedradas , e esta foi uma pedrada forte.Não te sabia com tanta coragem.Parece , que a tua geração , está realmente a despertar.PARABÉNS.MUITOS.