16.10.13

o que fica e o que vai - II

 
 
É inevitável que o meu regresso a Cascais traga recordações e me leve a sítios que são parte de mim. É como se eu daqui a muitos anos voltar a Moçambique, Pemba, ou ao Ibo. Um bocado de mim ficou lá. Como era suposto ficar, para que quando um dia eu voltar, eu me encontre naquele lugar. Há lugares que são pedaços de nós mesmos. Todos temos esses lugares.
Por muitas vezes, preferimos não revisitá-los, porque a presença do corpo, o seu peso, pisando o mesmo chão de um passado, traz saudade, dor, melancolia, faz a pele ficar arrepiada, baralha o nosso cérebro que julgamos tão bem controlado.
Um bocado de mim está nesta Vila. 
Se certo dia passei e entrei pela drogaria da minha infância, ou pela Pastelaria das nozes, chegou o dia em que voltei à minha Escola. Foi aqui, neste Liceu, que estudei do 7º ao 12º ano.
Foi há 20 anos.
Fui uma miúda muito feliz neste lugar. Tive imensas amigas, muitas, quase todas que hoje se matêm, amigas que se por um acaso encontro, no meio da rua, conversamos como se tivessemos outra vez 15 anos, sem nenhum tempo ter passado entre nós.
Lembro-me de cada sala, de cada canto, das cadeiras velhas, da chuva que entrava pelas janelas, dos intervalos, do Bar, dos bollycaos e do frisumo, das péssimas aulas de ginástica e das óptimas aulas de Filosofia, das calças de ganga que já andavam sozinhas, de ir a pé para o Liceu todas as manhãs fizesse chuva ou sol, das minhas canetas de tinta permanente, dos almoços na Pastelaria Sacolinha, de quando a Marina engravidou, de quanto o Martim teve um acidente horrível e perfurou uma costela numa grade, de quando caí de mota e apanhei o susto da minha vida, de quando os Pais da Joana se separaram, de quando dei um estalo ao João Paulo à porta da sala de matemática.
Todo esse tempo que passei, não volta. E quando o vivi, não seria suposto saber que nunca mais o iria repetir. Essa consciência de nós mesmos, não está prevista acontecer numa rapariga que estuda no Liceu. Mas eu sei quando em mim surgiu essa ideia do "meu eu" e foi precisamente no 9º ano, quando tinha 14 anos. Apercebi-me pela primeira vez de mim própria, do que fazia e do que existia.
E foi precisamente neste Liceu, num qualquer dia, durante as aulas, ou nos intervalos, que me apercebi quem era, e que apartir daquele momento, nada mais poderia ser igual. Agora tinha consciência de mim, já não existia pelo acaso. Era eu, e fui eu a partir daquele dia, naquele lugar.  
Este Liceu é um lugar que guarda a memória de quem fui, antes de ser.