24.2.14

surto mensal de malária - Gurué


África não se explica, não se escreve.
África é um exercício de escrita falhado.
As fotos são sempre bonitas.
As palavras ficam sempre bem.
Mas como se explica? Como é que se conta?
Um lugar onde o chá cresce em molhos verdes e fofos, os dias esticam-se até ao fim do mundo, a luz é sábia e o andar pela cidade faz que os pés toquem no fundo da terra; um lugar onde os meninos crescem num Rio, respiram por guelras e sonham com nada; um lugar com um cinema esquecido e estradas untadas pelo puré das mangas que brotam durante a noite e besuntam os caminhos de um cheiro doce ; um lugar que não existe, porque não existe outro; um lugar onde talvez nunca mais volte, e só essa ideia faz doer, assim como dói quando um amigo se despede de nós.
Nunca vou conseguir, nunca vou conseguir escrever sobre África; é um assolo que me pertence e me vai pertencer eternamente, como estas memórias cruas e densas que teimam em impregnar os meus ossos e apertar o meu coração.

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