31.3.14

confissão de um homicídio

 
Com esta minha urgência de arrumações, organização de livros, cadernos, diários e afins, é natural que me vá cruzando com memórias, lembranças e momentos que já passaram.
A primeira vez que levei um "tiro" numa aula de escrita, foi há cinco anos com a Dulce Maria Cardoso. E eu fiquei tão ferida, sentida e intelectualmente magoada, que nem um livro, o nome ou qualquer ideia que me desse a noção da sua existência quis saber.
O que ela disse da minha escrita naquela altura, deixou-me confusa e perdida, não percebia o motivo daquela "acusação".
E a partir desse dia, eu e os que comigo assistiram aquele momento, que ainda hoje são os meus "irmãos de letras", com quem partilho mais palavra e sentimento do que oxigénio, rebaptizaram-me de "fofinha".
Pelos vistos eu escrevia bem; não era mal, mas era "fofinho".
 
Sonhava com famílias cor de rosa, de bebés loiros com olhos azuis e labradores pretos, de uma casa no campo, ou perto do mar, com estufas de amoras e mirtilos, portadas brancas e aragem fresca, de um amor inesgotável entre um homem e uma mulher, com manhãs de lençóis brancos, mãos entrelaçadas e silêncios comunicantes. Sonhava com tudo isto e ainda o cheiro de uma lareira, ou dos pirilampos a evaporar, o barulho das andorinhas ou da chuva a chorar, uma música sempre a condizer, o riso das crianças, passeios infinitos, mergulhos num rio ou no mar, ver as estrelas ou apanhar folhas no Outono.
E ainda sonhava com a ideia simples de que a vida é a coisa mais imperfeita do mundo, e nós, corpos e máquinas (quase) perfeitas, temos de nos adaptar e viver perante tudo e todos os elementos, tão imperfeitos, tão pontiagudos e perversos.
 
Meses depois desta "chapada", lá para Setembro, encontrei um nome para o sonho, e chamava-se África. 
A terra mais absolutamente errada para se sentir tudo o que é tão certo e onde a absoluta verdade é tão mentira.
 
A "fofinha" foi para o mundo mais real que qualquer ficção, sem qualquer lógica e dramaticamente sofredor.
Foram meter a "fofinha" na gruta de um lobo e ela quis brincar com o fogo.
Durante um ano fui saindo de mim, ao mesmo tempo que entrava na minha alma, e a conhecia pela primeira vez, sempre em contacto comigo e com a natureza, numa mistura explosiva de real e de sonho, de tudo querer  e só ver a vida a fugir-me pelos dedos, da urgência do querer fazer e de nada estar a acontecer.  
Teve efeitos colaterais - qualquer vivência a este nível é humanamente insuportável.
Regressei. Procurei-me novamente. Listas de coisas. Cursos, escritas, circuitos, pessoas, rituais.
Até que a concretização de ser Mãe acontece e eu penso: "Pronto, deve ser agora que vem aquela parte da família cor de rosa, dos cães, amoras e lareiras."
Mas, a vida, cirúrgica e evasiva, assim como um Requiem, jogou-me os dados todos ao contrário.
Foram meter a "fofinha" no covil dos leões e ela quis provar o sangue.
E começou uma segunda viagem, depois de ter sido Mãe, que foi a da minha liberdade. 
Suja e pérfida, a liberdade é um gatuno na esquina, sempre a ameaçar, mas que quando o conseguimos agarrar, torcendo-lhe um braço e esmagando-o inteiro só com uma mão, deixa o doce vício da perdição.
Quem julga que a liberdade é uma senhora que usa saia pelo joelho e sapatos italianos, anda muito enganado, pois eu conheço bem os caminhos do excesso, do frágil, do perecível e perigoso, do profundo e do transitório.
No dia 27 de Dezembro de 2013, quase cinco anos depois, reencontrei aquela que me chamou de "fofinha".
Olhos nos olhos, cara a cara. Claro que ela não fazia ideia de quem eu era, já se tinham passado tantos anos.
Mas eu fitava-a como uma besta ferida, a querer fugir mas ao mesmo tempo a querer investir na fonte da sua ferida.
Falamos e conversamos sobre escrever, e não escrever, sobre a vida e sobre cães, sobre não ter filhos e ter filhos, sobre ser eternamente criança e profundamente matador.
E foi nessa noite, em que tinha posto pela primeira vez um baton vermelho, que decidi matar a "fofinha".
 
 
 
 

8 comentários:

macaca grava-por-cima disse...

Rita, que texto fabuloso! Obrigada, de coração, por esta maravilhosa partilha!

Nada é a preto e branco...
Tenho na Dulce Maria Cardoso a minha mais recente paixão literária, como já deves ter percebido... É mesmo apixão, daquelas que remexem cá dentro! A "chapada" dela foi certeira, tal como é a sua escrita... a vida encarregou-se do resto, sempre se encarrega ! E tu, Rita, tu és essa leoa, sempre foste... umas vezes mais fofinha, a ronronar, outras com as garras bem de fora e o nariz a farejar tudo em redor.

macaca grava-por-cima disse...

posso partilhar lá no estaminé?

Rita disse...

Claro!! :)

Mefi Pedro disse...


Olá,

Como sempre...ao ler o seu blog...desligo...

Adorei!!
Bem haja!!

Virá o dia perfeito... :) Merece!

Anónimo disse...

fantástico, pensamentos fantásticos, dar conta ser igual aos pensamentos. fiquei sem ar, o folego de uma leitura assim, uma alma escrutinada e eu que sou testemunha... pois. muita coisa pelo meio e terra vermelha igual a terra castanha, homens e mulheres, o mundo entranhado no somos assim. parabéns, muito bom, fantástico Malonso

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
macaca grava-por-cima disse...

rita, obrigada! só tenho a pedir-te desculpa por (ainda que inconscientemente) ter atraído um potencial hater (anónimo, pois claro!) para o teu doce bolo de arroz. bjs

macaca grava-por-cima disse...

e tb já percebi que este meu primeiro comentário pode suscitar interpretações dúbias... Mas o comentário era para ti Rita, e como acho que já me conheces um bocadinho, percebes o que quero dizer... bjs