14.11.13

Conversas do Divã #10

Fazer o luto.

Tenho a sorte de ao longo da minha vida ter experimentado muito pouco o sentimento de perda : quando tinha uns 10 anos morreu  o meu periquito Octávio e fiquei desolada de o ver no fundo da gaiola, duro e hirto de olhos fechados, 23 anos depois morreu o meu Avô e fiquei com o coração desfeito por estar a 9 mil kms de distância de toda a família.
Não me despedi de um ou de outro.
Aconteceu e o mundo continuou.
Um mês depois de ter nascido o meu filho, separei-me. Fiquei sozinha. Sem querer. Aconteceu e o mundo tinha de continuar.
Pela primeira vez tive de fazer um luto. Tive de me despedir de uma pessoa, muito longe de estar morta, antes pelo contrário, está viva e de boa saúde, que foi durante 12 anos meu marido, companheiro, confidente, amigo, amante.
E o mais estranho de tudo isto é que me sinto uma "viúva".
Tenho agora um ouvido especial para quem conversa sobre quem "cá não está", "quem partiu deste mundo" e a sensação é exactamente a mesma, sendo que ele não partiu, está vivo e existe.
A ausência de quem, de um dia para o outro, deixa de fazer parte do nosso dia, das nossas horas, dos nossos silêncios e das nossas conversas, é qualquer coisa de inexplicável.
Passando o tempo da dor e da revolta, ficam as memórias e os diálogos surdos.
É como se mesmo tendo tirado as fotografias das molduras, elas lá tivessem ficado.
Vão perdendo a cor, vão ficando mais debotadas, mais turvas, e num esforço de as recuperar limpo o vidro, agito a moldura, abro e fecho, sacudo o pó... mas o tempo está a levá-las, sem que eu nada possa fazer para o evitar.
Já tinha ouvido falar que um divórcio é um momento tão doloroso como viver a morte de um ente querido. Sempre me fazia uma certa confusão que assim fosse, pois a perspectiva da pessoa permanecer viva era pelo menos um ponto mais positivo neste jogo de azar.
Mas agora já percebo.
E quase que me atrevo a dizer, que não sei se não é mesmo pior, sabendo haver vida para além da dor.
Porque tenho de aprender a viver sem essa pessoa, sabendo que ela está viva, e que, no limite deste sofrimento consciente, não quis continuar estar viva, ao meu lado.
Retirou-se da minha vida, morrendo-me só a mim.
Sou por isso uma "viúva", ainda mais solitária do que a palavra existe.
Assim como quem perde a visão de um olho, aprende a ver e a fazer as coisas só com um a funcionar. Assim vivo eu. Aprendo a não ter essa outra pessoa ao meu lado, a viver sozinha fazendo as coisas contando comigo.
Do nada surgem as memórias, os momentos de paragem, de recuar, de lembrar, de chorar um pouco. Mas cada vez menos. Indo lá atrás e voltando aqui. Indo menos lá atrás e perguntando-me o que será amanhã. Querer afinal um outro amanhã.
Perdi a presença de um corpo, de uma voz, de um universo que se sumiu, de um mundo de coisas que carregava, de gargalhadas, de conversas, de situações, de momentos e de tempo que se passou junto. Muito tempo.Tanto que até África coube lá dentro.
Perdi uma pessoa que não morreu mas que se vai sumindo para longe.
Existiu.
Não existe mais.
Aceita-se, sofre-se com a falta, vive-se com a perda, aprende-se a viver outra vez.
São rastos de memórias, o tempo leva tudo, mesmo que eu não queira.
Foge por entre a areia, devagar, como a maré vazando. 
Um vazio que não é eterno e que em breve vai-se encher.
Acontece e o mundo tem de continuar.

 

3 comentários:

Anónimo disse...

O saber escrever é efectivamente um dom.Como são diferentes as pessoas umas das outras.

Anónimo disse...

Sem dúvida que escreve muito bem, mas o seu blog é um diário.
Em criança deram-me um diário que ainda continua a ser o MEU MUITO PESSOAL.
Não dê a ler o seu a quem não o deve fazer!
Esta é a minha opinião que tem o valor que lhe queira dar...
As relações são muito difíceis de acabar, mas são lâmpadas que se fundem e que têm que se deitar fora e substituir!
Os mortos vivos não merecem tanta consideração...

Rita disse...

O Blog é meu, como bem diz, se nele quiser falar de fungos nas unhas dos pés ou de hemorróidas é comigo. Se lhe faz confusão ler não venha cá. Isto é só para quem quer, o divã é meu e de quem se quiser sentar nele... ninguém anda aqui a obrigar ninguém a nada.
São lâmpadas para si, meu caro anónimo, mas por isso é que no mundo há quem viva e se sinta vivo, e quem se deixe viver. se um dia a pessoa em quem mais acreditava, confiava e gostava no mundo a deixar ao fim de 14 anos depois diga-me se são lâmpadas. ah, não faça isso, escreva no Diário SEU MUITO PESSOAL.
e se conseguir deitar tudo fora como deve ser, depois diga onde se tira esse curso prático de electricidade.