7.4.14

5 anos

 
Faz hoje cinco anos que comecei a preencher este arquivo de palavras minhas.
Antes disto já o fazia, escrevendo textos na máquina da minha Mãe, coisas cheias de densidade, confusas até para uma miúda que naquela idade devia estar mais preocupada com outras coisas.
Entre a internet e a máquina de escrever, estive muito tempo "calada" - engolia-me de palavras e de pensamentos, sem saber como os deitar para fora.
Afinal, tudo isto, e tudo o que sou, é simplesmente porque preciso de escrever.
Deve ser a mesma coisa para quem goste de pintar, desenhar ou cantar... preciso de me verbalizar em sílabas, como se escrevendo estivesse ao mesmo tempo a nascer em papel químico e a ouvir a minha voz.
Isto visto assim de longe até parece uma coisa digna e bonita - gratificante, até.
Mas é um horror.
Para ninguém deve ser tão difícil escrever como para quem escreve. Chega a ser um suplício.
E o pior é que as vozes têm vontade própria e exigem-me ditados autênticos (já trabalhei com a Associação de Esquizofrenia, por isso não vos apoquentais que eu não sou nenhum caso clínico). Ou seja, escrevo rios de coisas minhas, despejo-me toda para o fundo branco (do papel ou do ecrã) porque só assim acalmo estas tiranas (das vozes).
À boleia da escrita, passaram-se cinco anos da minha vida, tendo escrito este "Diário" em seis casas diferentes.
E à boleia desta frase absolutamente inquietante do Padre António Vieira, que me persegue há anos - "Só existimos nos dias em que fazemos. Nos dias em que não fazemos apenas duramos" - pûs-me então a ver o que andei a fazer...
 
Formação, tirar cursos de Escrita, voltar à Faculdade para estudar Filosofia, dar aulas, voltar à Escola para ter aulas de Ballet, fazer voluntariado, escrever contos e romances, publicar contos, participar e criar negócios a partir de ideias simples e giras (Saldanha Press, Ideias com Causa, Cozinha com Alma, Lifestories), ler e escrever para crianças, estar com animais, ajudar, sonhar com todas as letras, emigrar para Moçambique, voltar para Lisboa, nunca desistir de ser Mãe, nunca aceitar a derrota e ganhar distintamente um processo de Tribunal do Trabalho que durou 6 anos, ter (finalmente) uma ruína no Alentejo, ser afinal Mãe, saber aceitar o final de um casamento, do sonho e da ruína no Alentejo, fazer terapia sem ser um tabu, regressar a Cascais, dizer que gosto de coisas melancólicas sem ter vergonha, nunca deixar de acreditar no amor, assumir a minha alma e estar sempre a ouvir música enquanto escrevo.
 
Acho que não andei aqui apenas a durar... (faço-me tantas vezes esta pergunta, que imagino o Padre António Vieira a dar-me festinhas na cabeça e a dizer ao mesmo tempo: "coitadita")
 
E o que é comum a tudo isto, e aos cinco anos de palavras e desabafos, é que chutei sempre o medo para fora: o medo de dizer o que penso e do que outros possam pensar sobre mim.
Estou-me a cagar. Literalmente.
 
Só está comigo quem quer.
E é para esses meus queridos leitores e seguidores que vai a minha última palavra.
Também gosto muito de vocês.
até já!
 
        
 
 
 


1 comentário:

macaca grava-por-cima disse...

e eu gosto de ti!
Venham mais 55555555555 anos