6.4.14

a minha carta para o Manuel Forjaz e a lição que ele me dá no minuto a seguir a morrer...

Cascais, 15 de Janeiro de 2014 13:19
 
Caro Manuel,

Gostei imenso de ler a sua entrevista no DN.
A sua generosidade é imensa, e talvez seja por isso que a família "detesta" a sua exposição aqui no Facebook.
É quase como se o Manuel fosse um bocadinho "de todos" e de ninguém, ao mesmo tempo.
Escrevo-lhe por duas coisas:
1- identifico-me e revejo-me com tudo o que diz, e o que sente, apesar de, felizmente, não estar doente.
2- a minha relação com Moçambique é inexplicável e faz-me sofrer, como se estivesse doente.

Acredito que a maior riqueza que o Homem pode conquistar é a sua liberdade. Mas ser livre é uma gaita. Não associo tanto a liberdade ao dinheiro, como acho que faz um pouco parecer, como se para se ser livre é preciso ter muito dinheiro. Claro que inúmeros exemplos existem de homens ricos e pobres de espírito, e claro, também, que o dinheiro pode servir, e muito, nem que seja para pagar umas quantas sessões de Psicanálise!
O "conhece-te a ti mesmo" não é para qualquer um.
E exige trabalho.
Como diz o Donald Trump: you work hard, you get lucky!

Faço um imenso esforço por me conhecer, por me prever, por me respeitar e assim ser livre. O que me faz não ter medo da morte, mais tenho que o meu filho ou o meu cão sejam atropelados.
Digo "gosto de ti" a toda a hora, uso o meu sorriso como uma arma, acredito que no limite, todas as pessoas são boas, não tiveram foi a mesma oportunidade de se conhecer e por isso fizeram "más" opções...
A felicidade é mesmo uma escolha e até o sem-abrigo está debaixo da ponte pelas escolhas que fez.

Só uma coisa lixa o esquema, que é o acaso.

E o acaso é um meteorito que cai em cima de um planeta, um tsunami no dia de Natal, um cavalo que se atravessa no meio da estrada, as células que se multiplicam, os ovários que não funcionam... porque se as estatísticas existem, elas precisam desses acasos, que nos fazem pertencer ao universo das percentagens.
No meu caso calhei no universo dos casais inferteis.

Tenho 36 anos, fui casada durante 12 e vivi 8 anos com a infertilidade, numa espécie de doença que não é doença. Perguntavam-me mil coisas. Estavam sempre a perguntar de quem era a culpa, minha ou dele?
Ao fim de 7 anos sem filhos fomos para Moçambique (2010), por escolha nossa, por decisão dos dois.
Nunca lá tinhamos vivido ou sequer tinhamos raízes.
Fomos para as Quirimbas, vivemos entre a Ilha do Ibo e Pemba. O objectivo era criar um negócio de turismo (eco lodge).
O resultado, ao fim de um ano, foi o regresso a Portugal.

Uma mulher que não consegue ser Mãe é um bicho estranho. Só a paixão por ter um filho ultrapassou o amor que desenvolvi por África, numa espécie de amor-ódio.
Ao 8º tratamento consegui engravidar e 9 meses depois nasceu o Martim. E quando o Martim fez 1 mês, fiquei sozinha em casa com o meu filho e o meu cão.
O Pai tomou a decisão de sair de casa.
Assim, fui calhar ao universo das "Mães solteiras", a quem os maridos deixam depois do nascimento de um filho.

Deixei-o ir à sua vida.

Quem viveu e chegou a dormir sozinha numa Ilha, sem luz ou água canalizada, no meio do Índico, onde de 6/6 horas ficava isolada do mundo, tratar de um recém-nascido era conversa mole para mim.
África deu-me esta clareza de espírito, que a natureza será sempre superior ao Homem e por isso o que vier, será.

A liberdade é ouro em pó, quando comparada com a "vida de carneiro" que as pessoas levam pelo Ocidente... nunca se pode ser tão livre quando se vive em África.
É por culpa de lugares que comecei a escrever romances, o primeiro foi o Douro, que é para mim a geografia mais perfeita do mundo, o segundo foi Moçambique e o Ibo, dois lugares onde o silêncio é oco.
No Douro e no Ibo.

Quando voltei de Moçambique comecei a escrever uma história do M. (só sabia que começava por M.) que começa assim:
"Ser livre.
Todos os homens querem ser livres, quando depois passam a vida inteira a fugir da liberdade. É um contrassenso. São poucos os homens que conseguem ser realmente livres. Totalmente livres. Quase que um estado aproximado ao de um animal na savana. Mas mesmo o animal da savana tem a sua liberdade condicionada. Pelos outros, por quem o rodeia, pelo local onde está.
M. é o estado mais aproximado de um animal na savana. Está totalmente livre e por isso é um caso tão raro como o sítio que escolheu para viver. A total liberdade é para M. a verificação de três dimensões: material (das coisas), sentimental (das pessoas), intelectual (dos pensamentos)."


O que nos faz ser, não são as doenças, os acasos estatísticos dos universos de amostras, as coisas que temos, ou o que não temos, as escolhas que outros tomam e que alteram o percurso da nossa vida, deixando-nos no lodo autêntico.
O que nos faz ser inteiro é ser verdadeiramente livre, dar um sentido à vida, seja a fazer muito dinheiro num banco ou a cavar batatas no Alentejo.
O que nos faz ser inteiro é optar por não ter medo, e quando não temos medo somos o ser mais aproximado de uma qualquer dimensão metafísica de plenitude e harmonia.
É essa a dimensão em que o Manuel vive, e há muito pouca gente a atingir esse estado - faz parte de um universo muito reduzido de sortudos que se conhecem a si mesmos, que aceitam.
E não têm medo!
Força !

 
 
Resposta do Manuel (minutos depois):
 
Perderam quilálea? Só Moçambique para gerar vidas...de acordo com quase tudo.
Fico curioso o que faz na vida? um bj e espero um dia conhecê-la.
Pensa bem e escreve com o coraçao nas mãos.
 
 
Estou destroçada!
: (


4 comentários:

Patrícia Figueiredo disse...

Fizeste - me chorar com as tuas palavras.... só te digo isto: gosto de ti. E o Manuel de certeza que também te diria o mesmo... Bjs

macaca grava-por-cima disse...

Faço minhas as palavras da Patrícia... que soluço gigante Rita. Aguardo esse romance ;-)

di Capri disse...

«Digo "gosto de ti" a toda a hora, uso o meu sorriso como uma arma, acredito que no limite, todas as pessoas são boas, não tiveram foi a mesma oportunidade de se conhecer e por isso fizeram "más" opções...»
GRAT MINDS LIKE A THINK! Ganda artigo Rita! Também o meu coração ficou nas mãos...
Um beijinho;
Mónica Capristano

di Capri disse...

Saiu com gralha... era «GREAT MINDS», ovbiamente! :-)