27.4.14

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Às vezes sou um bocadinho profética.
Acredito-me em profecias. Sinais do tempo. Coisas para acontecer. Coincidências que não existem.
A notícia de hoje, da morte de Vasco Graça Moura, foi mais uma estalada, poucas semanas depois da morte do Manuel Forjaz.
 
Tinha chegado de Moçambique há pouquíssimo tempo, ainda me recompunha de tudo aquilo, quando fui ao CCB almoçar com uma amiga e prima, que lá trabalha.
Era uma espécie de Setembro. Tudo ainda morno, meio gás. Sentamo-nos as duas no refeitório do primeiro andar, frente a frente.
Pouco depois, entre apresentações breves de uma simples descontracção, senta-se ao meu lado o VGM e almoçamos os três. Foi das primeiras vezes que percebi o efeito de África em mim; tornara-me leve com a vida, serena e descomplicada.
Falamos de livros, dos clássicos que ele absolutamente recomendava ler, de escrever e ainda falamos de amor e de se estar sempre apaixonado.
E depois eu disse-lhe que acabara de chegar do Ibo, onde tinha estado a viver entre a ilha e a cidade de Pemba. Ele ficou curioso: "O que faz uma senhora da vossa idade no Ibo?"
 
Hoje também estive com uma amiga que passou pouco mais de 24 horas no Ibo, durante uma viagem a Moçambique, no início do mês.
Do meu universo de família e amigos, é a segunda pessoa conhecida que lá põe os pés.
E eu perguntei: "Ana, o que achaste?"
E ela disse: "Rita, aquilo é mágico, é quase irreal. Acho que tu até vieste de lá muito bem..."
 
Não sei. Não sei o que fiz no Ibo. Nem sei se vim de lá muito bem.
Só acredito que tudo tenha feito sentido para que hoje, quatro ano depois, eu ainda me sinta como parte daquele lugar. E vai ser assim para sempre, até eu morrer. Já percebi.
 
E morreu o Manuel Forjaz e agora o VGM e eu, que nunca tive medo da morte, só posso acreditar no absoluto sentido que a minha vida teve enquanto lá estive e continua a ter. Só desejo viver o suficiente para que faça o meu filho entender essa busca de uma tal plenitude, que só lhe pode trazer paz e tranquilidade.
Em qualquer parte do mundo.


1 comentário:

Anónimo disse...

É sobre a ilha de moçambique, mas as primeiras linhas também valem para o ibo:

Alberto de Lacerda

L'ISLE JOYEUSE

Ó festa de luz de mar tranquilo
De casas brancas de um branco rosa

Dum tempo antigo que aqui ficou

Ó ilha pura incandescente
Que me geraste três vezes mãe
Três vezes por mim sagrada
Por teres deuses tão variados
Por seres livre da liberdade
Que os gregos deuses orientais
Marcam a fogo um fogo alegre
Naqueles seres naquelas ilhas
Que eles nomeiam seus próprios filhos
Por motivos sobrenaturais


Já sabes que quando estiveres pronta, estou aqui para ler.

muitos bjs, Ana

O livro do Mia Couto é «UM rio chamado Tempo, Uma casa chamada Terra». Tenho cá em casa se quiseres ler.