24.4.14

Crónica da tristeza

 
 
Há muito tempo que não curtia uma fossa tão grande.
E curtir a fossa é isso mesmo.
Colar-me numa tristeza e numa melancolia peganhenta, mas ainda assim ser capaz de me pôr a dançar para o M., enquanto faço sopas, varro o chão e baixo-me 28 vezes para ir buscar as coisas que ele atira.
Li há pouco tempo uma espécie de profecia que dizia que antes de qualquer coisa de grande e bom acontecer, tudo se desmorona.
Uma fénix que renasce das cinzas, depois de ter ficado toda chamuscada.
Um clássico, afinal.
Como sempre me considerei uma clássica na íntegra, acabo por ver tudo a desfazer-se e a aguardar pelo momento da coisa grande e boa.
Agora, caros leitores, agora é que chega a parte em que me revelo.
Eu, que neste ultimo mês zanguei-me mais vezes do que nos últimos 30 anos da minha vida, estou possuída pela zanga.
Por isso, quem pela primeira vez durante este texto vier julgar-me e sussurar nessa leitura surda: "ah, ela realmente é uma mimada de merda, a vida é-lhe tão fácil e ainda se queixa!" -  que vá lamber sabão!!
Porque eu tenho tido uma vida facilitada, então, moro numa casinha toda bonita, num sítio onde não é suposto as pessoas estarem tristes ou cansadas (Cascais é a terra da gente feliz e rica, certo? pobres e tristes não há!), tenho os meus Pais, com saúde, que vivem ao meu lado, óptimo irmão, boas amigas, convivo com gente civilizada e educada, gente que só me quer o bem e o melhor, e não tenho de ter um trabalho chato das 9:00 às 17:00, e vivo desafogada, sem dívidas de maior ou problemas de saúde, e faço coisas interessantes, cultivo-me, ouço música, leio, escrevo, vou a exposições, tenho uma vida social intensa e recheada de momentos interessantes. Pois é. 
Mas sinto-me sozinha, e isto acertou-me como um soco no estômago.
Sentir-se sozinha é uma coisa que não está relacionada com sexo, raça ou credo, é tipo uma situação que se nos aparece sem que estejamos num grupo que assim o defina.
Não escolhe as pessoas, não está relacionada com comportamentos de risco - é uma merda que quando nos bate à porta, só se pode abrir e deixá-la entrar.
É uma solidão idiota, e uma tristeza estúpida.
Certo que ter o M. doente, praticamente todas as semanas desde há um mês, também não abona a esta Senhora que resolveu entrar cá em casa e sentar-se no meu sofá, todas as noites.
Noites de inferno, com a otite a matar os ouvidos do meu filho e a minha saúde mental.
E apesar desta noite ter tido um intervalo de 24 horas, a noite anterior foi a pior de sempre, desde que nasceu.  
Levantei-me 56 vezes para perceber o que se passava, pûs soro, aspirei o nariz, dei o antibiótico às 2:00, o xarope às 5:00, meti-lhe a chucha, procurei que adormecesse, sentei-o no meu colo, deitei-o outra vez, tirei-o da cama e embalei-o, fiz-lhe cócegas nas costas, dei-lhe leite, água, limpei-lhe o ranho que lhe escorria, as lágrimas, dei-lhe mimo e tentei afagar-lhe todo o sono mal dormido - pensei em levá-lo para a minha cama, mas não tenho quem o ampare do outro lado.
Tenho medo que caia a meio da noite.
Ele é pior que um vitelo acabado de nascer, mexe-se 20 vezes, rebola, dorme de barriga para baixo e rabo espetado, dá coices, fala, atira com os braços - um circo autêntico.
Já sei, já me disseram que há umas redes que se metem para eles não se atirarem da cama abaixo.
Mas até aqui confirmo a minha estúpida solidão.
Volto para a cama, depois desta luta, e sou um resto de pessoa, sei que me chamo Rita e pouco mais. Não há um abraço, não há uma mão que me segure, não há um eco, ou qualquer outra voz que me ouça e me pergunte como estou. Falo sozinha. Muito.
É certo, que mais vale sozinha do que comer croquetes a saber a óleo de pataniscas, mas eu acho que ser humano nenhum foi feito para estar sozinho  - é uma tristeza, pronto.
E perguntam vocês, se eu tenho feito a coisa de maneira a mostrar-me "disponível" para o mundo.
Rita, Ritinha, tens de te disponibilizar para o Universo, que o Universo depois envia a resposta.
E então, a Rita disponibiliza-se, a tal ponto de começar a usar creme para contorno dos olhos, se é que me entendem.
Rita, cuida-te, trata-te, põe-te a jeito, mas não tão a jeito, quer dizer, tens de te proteger, mas mostrares também algum interesse, não penses, e sente o que tens de sentir, mas não dês o teu coração logo assim, insinua-te, abre mais um botão da camisa, mas mantem-te misteriosa e cativante, faz uma conversa leve, divertida e simpática, mas não sejas miúda ou tola, mostra que és tu que mandas, dá-te aos outros, mas não mostres demasiado interesse nem que estás muito disponível, quer dizer, tu tens de estar disponível para os outros, mas não dês a entender a esses gajos o que se passa, nem que ficaste sozinha com o M., nem que levaste 12 anos de um casamento que acabou da maneira mais abrupta, nem os 8 anos de tratamentos, ou o despedimento da Pfizer ou a tua maneira sempre ingénua de acreditar que no fundo todos os homens são bons.
É fácil, então, repara: os homens são todos uma merda, Rita. Quer dizer, todos os que tu achas piada e por quem te interessas. Porque há uns tão queridos e impecáveis. Mas tu gostas sempre dos que não te acham graça nenhuma.  
E levaste uma estalada há 1 ano que mandou  a tua auto-estima para o piso -10 de um prédio sem fundo, vá, vê lá com quem te metes. É que tu agora não te podes magoar.
- Mas eu tenho de me disponibilizar, não foi o que disseram?
(a minha única oportunidade de afirmar qualquer coisa)
Foi, mas não te podes magoar. Tens de saber com quem te estás a meter. Tens de ter calma, que ele vai aparecer. Não podes estar ansiosa assim. Tens de te tranquilizar.
Só assim vais perceber. Não podes começar logo de repente, Rita. Tens de ter calma. Isto não é quando tu queres.
 
Entretanto janto todas as noites de tabuleiro no colo em frente à televisão, conto a mim própria como me correu o dia, vou-me rindo com a televisão, enrolo-me na manta, acendo uma vela para me fazer companhia e levo um livro para a cama até adormecer.
Já tratei do Martim, já o enchi de mimos e de beijinhos repenicados de Mãe babada, já o consolei dos desconsolos e dei festinhas naquela cabeça tão redondinha que cabe ainda toda na minha mão. Mas sinto-me sozinha.
Amor de Mãe é outro campeonato. Falamos de Liga dos Campeões e Campeonato do Mundo. Não se misturam as conquistas.
Mas eu não me queixo, então. Não me posso queixar. Tanto tempo para ter este filho, para concretizar o meu sonho e agora, agora que consegui, queixo-me de estar sozinha.
Ah, Rita.
Não percebes nada, Rita.
Da última vez que te apaixonaste não havia telemóveis, facebook ou instagram. Tiravam-se fotos com rolos de 24 ou 36 fotografias e era-se sócio de clubes de vídeo com cassetes VHS e Beta.  Os trabalhos da escola eram feitos em acetatos, os computadores pesavam 25 quilos, no mínimo, e escreviam-se cartas e postais. Quais emails.
Não percebes nada do amor, Rita. Agora, como sempre.
E assim, no meio desta minha fossa emocional e sentimental, ainda fiquei sem a minha empregada, que me dava quatro horas por semana de um descanso principesco, (sim, tenho empregada, sou por isso uma cabra de uma gaja que tem empregada e ainda se queixa, certo?) comecei com a minha TPM, perdi a inspiração de uma data de ideias para a escrita, deixei a meio tantas coisas, e meti-me em outras tantas que estou em falta: encontrar clientes para a Lifestories, fechar projectos /livros, cumprir prazos e ideias com que me comprometi no início do ano, resolver casos bicudos na Cozinha com Alma, organizar uma venda de mães (garage sale), ir às vacinas com o M., tratar do selo do carro (é agora?), encontrar uma empregada, manter-me a pôr creme de contorno dos olhos, não falhar horas do antibiótico do M., ...

Na "Velha Casa" do José Régio, há uma parte em que o Lelito (o personagem principal), decide a meio da sua crise de rapaz confuso, que seria eternamente infeliz e profundamente miserável.

O que é, para mim, o mais fácil e óbvio passo a seguir. Escolher ser miserável é a opção mais fácil e acertada para mim.
Mas, apesar de tudo, não a escolho, não.
Curto a fossa, chafurdo bem nesta lama, mas não me fico por aqui.
Dias melhores, como diz o moçambicano, "há-de vir".
 
 


1 comentário:

Pedro disse...

Às vezes custa acreditar que o melhor está para vir. Mas é nossa obrigação acreditar nisso.

(a solidão pode ser terrível, mas mais miserável é não se ter ninguém com quem chorar. E isso, ao contrário da solidão, depende apenas e exclusivamente de nós)

Um grande, grande beijinho, de quem, nos últimos tempos também não tem tido o melhor do mundo