24.7.12

diários de moçambique** #2

Diário de Moçambique. Volume 1. "do que te leva a ir"
15 de Julho, 2010.  Gorongosa (Aldeia Chitengo).
(a propósito da Reportagem "Gorongosa" da Cândida Pinto, que passou no Jornal da SIC este Domingo, dia 22.07)

Silêncio na Gorongosa.
Num instante o sol desaparece. É tão rápido que quando queremos olhar para o pôr do sol, já o escuro veio. E fica logo escuro - não há desaceleração do sol, uma diminuição da luz. É tudo muito rápido.
É um movimento inversamente proporcional ao ritmo da vida por aqui - lenta, densa, cheia...
Acredito e senti que sempre fui assim, quieta com o tempo, absorvendo o silêncio.
Está noite cerrada, são 19h10 e lá fora só se ouvem os barulhos da selva.
Logo, logo a noite vai acabar e logo, logo vem a luz do sol.
O Xano dorme a sesta.
Ele podia ter vindo de uma caçada e eu tinha ficado com os cães no acampamento a ler e a escrever. Fumava e acendia cigarros com os fósforos Pala-Pala - ele ia a voltava com os bichos. Há 50 anos atrás andavam aqui os meus Tios, o meu Avô e deviam repetir um ritual assim: dia após dia.
Nascendo o sol, vindo a noite.
Não havia telemóveis, escreviam-se cartas, diários, deixava-se o tempo ir passando.
Acendiam-se velas, dormia-se cedo. E os bichos?
Sempre os houve. Osgas e moscardos que picam, melgas e aranhas.
Porque África é dos bichos, não é do homem - os pretos deitam-se ao lado deles. Adormecem na humidade  - numa humidade fria, da noite, que nada tem a ver com o calor. É também densa, cheia. Entra muito dentro da pele.

**excertos do meu Diário Pessoal escrito durante a minha estadia em Moçambique, entre Julho de 2010 e Agosto de 2011

1 comentário:

Anónimo disse...

Estive 2 anos em Angola , sempre fora das cidades e vilas e nunca ouvi os barulhos da selva a não ser os batuques que tocavam sem que houvesse qualquer luz.