31.1.12

Ao pôr do sol...


E assim, no final de um dia de pleno Verão africano, com uma morna e suave brisa que varria a Ilha e os pássaros, sempre os pássaros, que a enchiam de ritmo, cor e energia, recebia a notícia que desejei nunca ouvir enquanto estivesse em Moçambique.
Mas a realidade é crua, acabando quase sempre por acontecer o que tememos.
Estava uma luz perfeita nessa tarde e à exacta hora que o meu Avô se despedia do mundo, uma bola de fogo e toda a natureza se despediam daquele pedaço de terra.
Ele na sua casa, em Lisboa, onde sempre o conheci, eu num outro Continente e num lugar onde ele nunca me teria imaginado.
Na altura escrevi-lhe esta carta, que ainda hoje me faz encher os olhos de lágrimas.
Era "O" Avô, pois nunca tive outro. Fazia-me cócegas nas costas. Levava-me a passear à Gulbenkian, comprava-me uma sombrinha de chocolate na Pastelaria da esquina.
Por muitos anos, exactamente 16, eu fui a neta mais nova. A última de sete netos. Entre a família, chamavam-me a "Ritinha do Bó", a Rita do Avô. E eu só tinha mesmo este Avô.
Depois cresci e já estando casada a morar em Lisboa, julgo ter "descurado" a nossa relação, sem tê-lo feito com qualquer intenção e ainda hoje não percebendo o significado disso mesmo.
São questões que agora ficam. Cabe-me a mim pensar sobre elas e perceber o meu comportamento e a razão desse meu "movimento".
O que sei é que senti e sinto a sua falta. Era como uma consistência na minha existência, algo que esteve sempre ali, naquela casa, naquela sala pouco luminosa e naquele sofá verde.
Não podemos mudar o passado. Mas ele pode mudar a nossa atitude.
Hoje penso, um pôr do sol africano será talvez a melhor despedida do mundo.

Nota: nesta foto estou ao colo do meu Avô, em casa dos meus Pais e devia ter 1 ano.

2 comentários:

macaca grava-por-cima disse...

<3
A escrita, sempre a escrita e a sua capacidade de catarse de sentimentos difíceis e do eternização de pessoas/momentos especiais.

Ler-te (e a esta carta) apaziguou-me o coração, não me perguntes porquê, que nem o sentia particularmente desassossegado... Obrigada

Nota: estás igual! :-)

Rita disse...

Obrigada Macaca! afinal o teu ADN é 99% humano, daí o teu coração mole ;)