20.1.12

Meus Senhores,

Gente como nós, que se irrita quando as torradas queimam de manhã, que apanham o cocó do cão, que detestam ter comichão no pé sem conseguir coçar, que tiram os restos de batata frita que se enfiam nos dentes com o dedo, que dão puns.
Meus Senhores, sendo vós eleitos por nós, gente tão somente igual a vós, como acham possível que assim se vá a lado algum?
A aritmética não é meu forte, mas a razão é tão simples que qualquer um pode chegar à mesma conclusão. Isto são só factos com "c" e não fatos de fazenda.

1º Civilização = mobilidade; isto é, o nível de evolução de uma Sociedade é directamente proporcional à sua rede de transportes e de circulação de meios locomotores (carros, camionetas, camiões, comboios, eléctricos, metros, barcos).

2º O preço da gasolina e do gasóleo, das portagens, das Scuts, dos parquímetros, dos seguros do carro, da inspecção, da revisão na oficina ultra-não-oficial que fica em cascos de rolha, numa terra chamada no mínimo, Sítio da Queiteira de Cima, o preço de tudo, já para não falar do carro em si, é obsceno nestes tempos e nesta terra.

3º Utilizar a rede de transportes públicos é para muitos a única solução. Garantem chegar ao emprego a horas e chegar a casa ainda a tempo de ver a novela, tendo antes estendido uma máquina de roupa escura e feito uma sopa de nabiças. Eu sou portadora do passe "Lisboa Viva", fervorosa adepta do Metro de Lisboa, além de usar o comboio na Linha de Cascais, o autocarro e até o eléctrico que passa à porta de minha casa.

4º Hoje mesmo o Governo anunciou cortes de várias "carreiras", de autocarros no centro e arredores de Lisboa, uma delas, segundo o que diziam na televisão, usada por muita gente que trabalha de noite. No Metro, além de cortarem carruagens e reduzirem horários em algumas linhas (especialmente de noite), vão passar a andar a 45km/h. O que é óptimo para jogarmos ao Mikado e assim fazer amigos debaixo do chão!


Agora, sem brincadeira, o que me aflige, é que isto são sinais errados. São medidas de austeridade é correcto, mas onde está o fim?
Utilizar um autocarro ou o metro de noite é também um sinal de segurança, sem esses apoios o medo de andar na rua à noite aumenta. E logo em Lisboa, que é uma cidade tão serena, tão pacífica quando comparada com grandes capitais da Europa e mesmo do Mundo.
As pessoas vão chegar atrasadas aos empregos e cansadas porque tiveram de mudar 4 vezes de linha, vão chegar exaustas a casa, não vão ter paciência para ajudar os filhos nos trabalhos e vão fazer uma sopa de pacote.
As implicações destas medidas são inúmeras, se a isso juntarmos ainda as questões laborais de aumento do desemprego, de carga horária, redução de vencimentos e de subsídios.

Meus senhores, aceito que seja a minha geração (35-40) a pagar a moeda dos disparates que andaram aqui a fazer quando eu era uma adolescente, comia bolycaos e estudava na Escola Secundária de Cascais. O que não compreendo é qual o objectivo disto tudo, por que se é tão drástico a curto prazo, quando a longo prazo as consequências são terríveis: famílias desestruturadas, pessoas perdidas, sem rumo, ausência de perspectivas positivas, mau ambiente em sociedade, depressões.

Ontem a notícia de que o aumento de suicídio tinha disparado em Países sob a tutela das medidas troikianas, além dos casos de depressão e recaídas ter aumentado em Portugal, é só uma amostra do que virá a acontecer nos próximos tempos.

Há que respeitar números, porque o dinheiro não cresce nas árvores e se andamos a brincar aos Países evoluídos agora temos de pagar esse erro, mas no fim de tudo, nesse fim que pelos vistos os Senhores não conseguem vislumbrar coisa nenhuma, estão pessoas. Pessoas como vós, que têm dores de cabeça e tomam aspirina C, que se cortam sem querer quando abrem uma lata de atum.

Na Farmácia vi um senhor, 40 anos, com uns bons sapatos e um casaco talvez largo, a pagar uma caixa de medicamentos com moedas e a combinar com a farmacêutica que só dai a poucos dias teria dinheiro para pagar o resto da receita. Fiquei intrigada. Pensei logo num Banco de medicamentos, como um Banco Alimentar, mas isso é praticamente inconcebível, muito complicado e que mexe com variados Lobbies.

Estou assustada com tudo isto, com o rumo que as coisas poderão levar. São as pessoas que garantem uma Sociedade equilibrada e próspera, esquecê-las e passar a olhar para tabelas de Excell, é matar a origem daquilo que nos distingue dos animais. Gostar de viver e ser optimista é o que nos faz progredir, querer ser melhor todos os dias e alcançar um bem-estar geral.
Colocar as pessoas em situação de desespero de uma forma totalmente involuntária (eu só penso naquelas pessoas que hoje souberam que vão ficar sem autocarro, quando é o seu único transporte) é deitar gasolina para uma fogueira.

Falar não chega, escrever não chega. Há que fazer qualquer coisa.
Eu tenho novidades em breve para vos dar, acerca de um negócio social onde estou envolvida e que será uma gota neste oceano de barcos a ir ao fundo, mas pelo menos iremos tentar preencher um pouco do que vem fazendo falta a tantas famílias.
Enquanto há pessoas que abrem lojas de roupa, outras há que abrem "Cozinhas com Alma."
Depois conto tudo.
Por agora chega de paleio e aproveitem este Sol que é de borla (por enquanto) e façam um pic-nic este fim de semana. Coisas que toda a gente gosta, não é Meus Senhores?

2 comentários:

Anónimo disse...

É.São mesmo desabafos e pensamentos.Mas o que é mesmo é uma realidade.Ninguem faz isto por prazer e vamos a ver como vai tudo ficar.Como temos vindo a ouvir o nosso continente está a passar por um processo económico , financeiro e social muito profundo.A razão disso são questões tambem muito profundas.Há que estar muito atentos e todos os dias verificar.

macaca grava-por-cima disse...

Gosto de cozinhas/negócios com alma, acho que a solução para a "C word" passa por esse lado social, isto é, está precisamente nas pessoas.
Podes ser só uma gota de água, mas tenho a certeza que uma gota pode fazer uma grande diferença. No que esta macaca puder ajudar, dispõe... É preciso arregaçar as mangas e mandar a crise dar uma curva!!! Bem-hajas Rita!